Frederico Lima

Teoria, clínica e cotidiano. Projeto que visa "descomplicar" a psicanálise para estudantes e profissionais, oferecendo conteúdos voltados à compreensão dos enigmas do desejo e do sofrimento humano.

O conceito de GOZO para a Psicanálise

 Por Blatterhin - Obra do próprio, CC BY-SA 3.0.

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O conceito de Gozo (Jouissance) representa um dos elementos mais complexos e fundamentais da teoria psicanalítica, especialmente na vertente inaugurada por Jacques Lacan. Diferente da acepção comum da palavra, que remete quase exclusivamente ao prazer orgástico ou à satisfação plena, o gozo na psicanálise situa-se em uma dimensão que transcende o Princípio do Prazer freudiano. Enquanto o prazer busca o equilíbrio, a homeostase e a redução das tensões psíquicas, o gozo é caracterizado por um excesso, uma satisfação paradoxal que insiste mesmo na dor, no sintoma e no sofrimento. É a satisfação da pulsão que não conhece limites e que, por sua própria natureza desmedida, torna-se traumática para o sujeito.

Para compreender o gozo, é preciso retomar a distinção entre a necessidade biológica e o desejo. A necessidade é passível de satisfação através de um objeto real (como a fome saciada pelo alimento). O desejo, por sua vez, é metonímico, eterno e insaciável, pois nasce da falta fundamental gerada pela entrada do sujeito na linguagem. O gozo, contudo, ocupa um terceiro lugar: ele é a economia de uma satisfação que o sujeito extrai do próprio processo de repetição. Freud já havia vislumbrado isso em "Além do Princípio do Prazer" (1920), ao observar que pacientes repetiam experiências traumáticas que não traziam prazer algum ao Eu, mas que pareciam obedecer a uma "compulsão à repetição". Lacan nomeia essa "satisfação da pulsão de morte" como gozo. Ele é aquilo que "não serve para nada", um gasto inútil de energia que consome o sujeito, mas do qual ele não consegue abrir mão facilmente, pois o sintoma, embora doloroso, é uma forma de gozar.

A evolução do conceito no ensino de Lacan revela diferentes facetas dessa satisfação obscura. Inicialmente, o gozo foi pensado em oposição ao Desejo. O desejo é articulado, passa pela lei simbólica e pelo Outro; o gozo é inarticulado, silencioso e, muitas vezes, autista. No Seminário 7, "A Ética da Psicanálise", Lacan utiliza a figura de Antígona e a noção de "A Coisa" (Das Ding) para ilustrar esse campo proibido. O gozo seria o contato direto com a Coisa, um núcleo de real absoluto que queima quem dele se aproxima. Por isso, a Lei (o Simbólico) existe para barrar o gozo. A interdição do incesto, por exemplo, não proíbe algo que seria naturalmente prazeroso, mas interdita um gozo absoluto que aniquilaria a subjetividade. O sujeito, portanto, é aquele que aceita trocar o gozo pela linguagem, transformando a satisfação bruta em desejo endereçado ao Outro.

Contudo, o gozo nunca é totalmente eliminado pela castração simbólica. O que resta desse processo são os chamados "objetos a", pequenos pedaços de gozo que funcionam como causas do desejo. O sujeito passa a vida buscando esses substitutos, tentando recuperar aquela plenitude mítica perdida. É aqui que surge o conceito de "Mais-de-Gozar", termo que Lacan toma emprestado da "mais-valia" de Marx. Assim como o capitalista extrai um lucro que nunca satisfaz o sistema, mas o mantém girando, o sujeito psíquico extrai do sintoma um excedente de satisfação que compensa a renúncia pulsional exigida pela civilização. Esse gozo é "escrito" no corpo; ele não é da ordem do sentido, mas da ordem do evento de corpo. O sintoma, visto sob esta ótica, não é apenas um sinal a ser interpretado, mas uma maneira de o sujeito organizar seu gozo diante do vazio do Real.

Uma diferenciação crucial na maturidade do pensamento lacaniano é a partilha entre o Gozo Fálico e o Outro Gozo (ou Gozo Suplementar). O Gozo Fálico é o gozo do órgão, do limite, da palavra e da punção masturbatória. É o gozo que passa pelo significante e que está submetido à função fálica, comum a homens e mulheres enquanto seres de linguagem. Ele é um gozo limitado, pois o falo, como significante da falta, impõe uma medida. Por outro lado, Lacan postula a existência de um "Outro Gozo", que ele exemplifica através do êxtase místico, como o de Santa Teresa de Ávila. Este gozo não é mediado pelo falo e não pode ser totalmente dito ou simbolizado. É um gozo do corpo que escapa à lógica do "ter" e se situa na lógica do "ser".

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Essa distinção é fundamental para a teoria da sexuação. O lado "masculino" da sexuação (independente do gênero biológico) é aquele que se sustenta inteiramente no gozo fálico, acreditando na totalidade da lei e na universalidade. O lado "feminino", definido como "não-todo" submetido à função fálica, tem acesso a esse gozo suplementar, que é infinito e indizível. Não se trata de uma superioridade, mas de uma posição subjetiva distinta diante da castração. Enquanto o gozo fálico é o gozo da castração (do limite), o Outro Gozo aponta para o que há de ilimitado e inalcançável no Real. Entender essas nuances permite ao analista perceber que o final de uma análise não visa a eliminação do gozo, o que seria impossível, mas sim uma "travessia do fantasma" que permite ao sujeito lidar de forma menos mortífera com seu resto de gozo.

Na contemporaneidade, a psicanálise se depara com novas formas de subjetivação onde o gozo parece ter mudado de estatuto. Se na época de Freud a neurose era marcada pela repressão e pela culpa diante do desejo, hoje vivemos no que alguns autores chamam de "civilização do gozo". O imperativo do supereu contemporâneo não é mais "Não faças isso", mas sim "Goza!". O mercado oferece objetos de consumo (os gadgets) que prometem uma satisfação plena e imediata, tentando saturar a falta constitutiva do sujeito. Entretanto, esse comando para o gozo ilimitado produz uma angústia profunda, pois o sujeito se vê compelido a uma performance de felicidade e satisfação que é estruturalmente impossível de atingir.

As adições, as compulsões alimentares, o pânico e as depressões severas são manifestações clínicas desse gozo que não encontra borda no Simbólico. Quando o gozo não é mediado pela Lei, ele retorna de forma bruta e destrutiva. O papel da clínica analítica, portanto, torna-se o de ajudar o sujeito a encontrar um "saber fazer" com seu gozo. Em vez de ser escravizado por uma repetição inconsciente que o consome, o sujeito é convidado a inventar um novo uso para esse excesso. É o que Lacan chamou, em seus últimos seminários, de Sinthome: a amarração singular entre o Real, o Simbólico e o Imaginário que permite a um sujeito sustentar sua existência sem ser tragado pelo gozo devastador do Outro. O gozo, em última análise, é o que há de mais íntimo e estranho em nós, o nosso "extimo", e aprender a habitá-lo é o desafio ético da psicanálise.

Referências Bibliográficas

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 7: a ética da psicanálise (1959-1960). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise (1969-1970). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: mais, ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

MILLER, Jacques-Alain. Os seis paradigmas do gozo. Tradução de Vera Avellar Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

SOLER, Colette. Lacan e o feminino. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

ZIZEK, Slavoj. O mais sublime dos histéricos: Hegel com Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.

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Frederico Lima

Psicanalista, especialista em Teoria Psicanalítica, com trabalhos publicados em revistas científicas, capítulos de livros e anais de eventos nacionais e internacionais. Atua no desenvolvimento de pesquisas relacionadas à interface Arte e Psicanálise, com ênfase na investigação dos processos psíquicos refletidos na escrita literária, na música e no cinema contemporâneos, tais como: perversões; parafilias; fetichismo; neossexualidades; violência e cultura; privação e delinquência; adicções e toxicomanias; família em desordem.